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Pastoral das Comunicações
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Publicação Mensal - Ano 11 - Número 152 - Julho de 2008
Nota da CNBB sobre áreas flagradas com trabalho escravo
P. nº 0497/2008
A CNBB acompanha com grande interesse os trabalhos do Congresso Nacional,
sobretudo os que têm dimensão social. Desse modo, está atenta à votação, em
segundo turno, da Proposta de Emenda Constitucional PEC - 438/2001, relativa às
áreas flagradas com trabalho escravo.
A escravidão é uma prática abominável
que a Igreja no Brasil, pela voz de alguns Bispos e, de modo sistemático e
documentado, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), vem denunciando desde a
década de 1970.
O Estado Brasileiro reconheceu a
gravidade da situação quando, em 1995, foi criado o Grupo Móvel do Ministério do
Trabalho para fiscalizar e combater essa prática criminosa. O mesmo se diga da
criação, em agosto de 2003, da Comissão Nacional Para a Erradicação do Trabalho
Escravo - CONATRAE, órgão colegiado vinculado à Secretaria Especial dos Direitos
Humanos da Presidência da República com a função primordial de monitorar a
execução do Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.
No entanto, mesmo a criação de tais
instrumentos não foi capaz de erradicar esta vergonha nacional. Somente no ano
de 2007, foram registradas pela CPT 265 ocorrências de trabalho escravo em todo
o Brasil, envolvendo 8.653 trabalhadores. Destes o Ministério do Trabalho
resgatou, em suas ações de fiscalização, 5.974 trabalhadores. Desde o ano de
1995, quando foi instituído o Grupo Móvel, até o final de 2007, foram libertadas
26.951 pessoas. Nesse período, a Comissão Pastoral da Terra registrou denúncias
envolvendo mais de 50 mil trabalhadores 'aprisionados por promessas', obrigados
a trabalhar em fazendas, carvoarias e canaviais, tratados pior que animais e
impedidos de romper a relação com o empregador.
No âmbito do Congresso Nacional, em
1/11/2001 foi apresentada Proposta de Emenda à Constituição pelo Senado
estabelecendo a pena de perdimento da gleba onde for constada a exploração de
trabalho escravo (PEC 438/01). Essa Proposta foi aprovada pelo Senado em 2003, e
pela Câmara dos Deputados, em primeiro turno, no dia 11 de agosto de 2004, após
a comoção nacional provocada pela chacina dos Auditores Fiscais do Ministério do
Trabalho e de seu motorista, em Unaí, em 28 de janeiro de 2004.
Incompreensivelmente, a partir daí não se deram outros passos significativos.
Agora, depois de muitas manifestações da sociedade civil, a PEC 438/2001 volta à
pauta para ser votada em segundo turno.
Se o desrespeito à função social da
propriedade da terra já é, segundo a Constituição, motivo suficiente para sua
possível desapropriação, o uso da propriedade como instrumento para escravizar o
próximo é crime absolutamente intolerável contra a dignidade e contra a vida.
Nada mais justo que os que praticam esse crime venham a perder sua propriedade,
sem compensação, para que o Estado lhe dê destinação apropriada,
especificamente, para a reforma agrária!
Desta forma, a aprovação da PEC
438/2001 é um imperativo ético e moral da consciência cidadã e, para os
cristãos, uma exigência de coerência com os ensinamentos do Evangelho de Jesus.
Assim, a CNBB soma-se ao clamor nacional para que se ponha um fim a tamanha
agressão à pessoa humana.
São 120 anos da abolição da
escravidão no Brasil, 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O
tempo é propício para se decretar a segunda abolição da escravidão no campo
brasileiro por meio da aprovação desta PEC.
Confiamos no espírito público do
Congresso Nacional, no senso de justiça e de valorização da pessoa humana de
nossos Parlamentares. A aprovação da PEC 438/2001 será uma excelente
contribuição para que seja varrida de nosso horizonte uma vergonha que tanto
desonra o Brasil. A Campanha da Fraternidade deste ano nos conclamou a escolher
a vida. Escolhe, pois, a Vida! - é o que esperamos de cada membro da Câmara dos
Deputados.
Brasília, 04 de junho de 2008
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB.
fonte: CNBB