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Diretrizes Gerais
da Ação Evangelizadora
da Igreja no Brasil
Pe. Alberto Antoniazzi
A
41ª Assembléia dos Bispos do Brasil aprovou as Diretrizes Gerais da Ação
Evangelizadora para o período 2003-2006. O texto integral está publicado no n.°
71 da coleção “Documentos da CNBB” (Paulinas, S.Paulo, 2003, 140p). Apresentamos
aqui uma síntese das novas Diretrizes. Elas serão citadas com a sigla DGAE e o
número do parágrafo.
As Diretrizes atuais se inserem numa
longa série. As primeiras foram publicadas em 1975, substituindo o “Plano de
Pastoral de Conjunto 1966-1970”, prolongado até 1975. Foram reelaboradas a cada
quatro anos, mais profundamente após Puebla (1979) e em 1991, ficando
substancialmente as mesmas em 1995-98 e 1999-2002. Agora as Diretrizes,
acompanhando as mudanças da sociedade, contêm muitas novidades, embora em
continuidade com as orientações do Concílio Vaticano II (1962-65), das
Conferências Episcopais Latino-Americanas (Medellín, 1968; Puebla, 1979; Santo
Domingo, 1992) e com a caminhada da Igreja no Brasil. Uma particular inspiração
para as novas Diretrizes 2003-2006 veio da Carta do Papa João Paulo II “Novo millênnio ineunte” (Iniciando-se o novo Milênio).
As novas Diretrizes apresentam o
“Objetivo Geral” e, depois de uma introdução (n.º 1-12), três capítulos:
Missão da Igreja: evangelizar;
Novos desafios no início do Novo Milénio;
Diretrizes de ação.
É o que vamos expor, resumidamente, a seguir.
I n d i c e
| Capítulo I - Missão da Igreja: Evangelizar |
| Capítulo II - Novos desafios no início do Novo Milênio |
| Capítulo III - Diretrizes de Ação |
| Conclusão |
| Diretrizes e Planejamento Diocesano Local |
Missão da Igreja: Evangelizar
O capítulo I se inicia retomando a proposta da “evangelização inculturada”.
Citando um trecho famoso da “Evangelii Nuntiandi” de Paulo VI, as Diretrizes
reafirmam a necessidade de evangelizar a cultura e as culturas, “não de maneira
decorativa, .. superficial”, mas transformando “os critérios de julgar, os
valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes
inspiradoras e os modelos de vida da humanidade” (DGAE, n.° 13).
Conforme o conceito de evangelização
“inculturada”, já adotado nas Diretrizes de 1995-98, quatro são as “exigências”
fundamentais da evangelização: serviço-diálogo-anúncio-comunhão. Elas são tão
importantes que foram adotadas como referência para apresentar as “pistas de
ação” do capítulo III, o mais longo das DGAE. Foram preferidas as quatro
exigências às antigas “seis linhas” ou dimensões, que descreviam a ação pastoral
no “Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970”, inspirado no Concílio.
Poder-se-ia perguntar: por que esta
escolha? Por que não ficar com as “seis linhas” que muitos já conhecem? A
resposta é dúplice. Por um lado, as quatro “exigências” enfatizam mais a ação da
Igreja “para fora”, voltada para a evangelização de pessoas, culturas e
sociedade. (As seis linhas estão - sobretudo a comunitária, a catequética e a
litúrgica - muito voltadas “para dentro”, para a vida interna da Igreja). Mas há
outra razão, talvez mais profunda: as quatro “exigências” não expressam só
“o
que fazer”, mas ressaltam “como fazer”. Dizem o espírito evangélico - de
serviço, diálogo, anúncio, comunhão - de que toda a ação dos cristãos deve estar
impregnada.
As novas Diretrizes explicam também
(no n.° 17) que o “testemunho” não se dá apenas pela comunhão fraterna ou
eclesial, mas por meio de toda a vida cristã e de toda atitude de serviço,
diálogo ou anúncio. A diferença entre anúncio e testemunho está no modo de
apresentar Jesus Cristo: o anúncio é feito principalmente pela palavra, pela
proclamação; o testemunho é feito principalmente pela vida, pelas ações.
A Igreja, enviada para evangelizar,
alimenta-se permanentemente na Palavra de Deus (a palavra da Escritura, que tem
seu centro e sua chave de interpretação na pessoa de Jesus Cristo), na liturgia
(a Eucaristia e os outros sacramentos) e na caridade (principal dom do Espírito
aos discípulos de Jesus). Esses são os aspectos permanentes da missão da Igreja
- as “fontes da sua vida” - e, ao mesmo tempo, os serviços ou ministérios que a
Igreja é chamada a oferecer perenemente à humanidade. É desse tesouro que a
Igreja tira força e orientação para a evangelização e para enfrentar os desafios
renovados que o devir da história lhe apresenta. As Diretrizes apresentam os
ministérios da Palavra, da Liturgia e da Caridade nos n.os 20 a 43.
Afirma-se, conforme o Concílio
Vaticano II, a primazia da Palavra na vida da Igreja. A palavra é proposta pela
leitura da S. Escritura na liturgia, é fonte de leitura orante e comunitária da
Bíblia, é fundamento da catequese (recomenda-se “catequese adulta com adultos”)
e da formação integral do cristão. A Palavra deve ser pregada também aos povos e
aos que estão “fora” da Igreja visível, pois a missão da Igreja de Cristo é
universal, dirigida a todos.
A Liturgia é a expressão mais visível
da natureza da Igreja, reunida pelo Espírito de Deus por meio da Palavra e do
ministério apostólico. A liturgia deve ser celebrada no espírito da Igreja,
fomentando a participação dos fiéis e sua formação litúrgica.
Especial valor tem a celebração da
liturgia dominical e do ano litúrgico, bem como dos sacramentos, que marcam os
momentos importantes da vida do cristão. A pastoral sacramental é oportunidade
de encontro com muitos que participam apenas ocasionalmente da vida da Igreja e
que devem ser acolhidos e ajudados a descobrir a riqueza da vida eclesial.
Atenção especial merece a religiosidade popular, que aproxima de Cristo, de
Maria e dos santos, embora nem sempre da liturgia.
A Caridade, o amor a exemplo de
Cristo, é a essência da vida cristã e o que distingue os discípulos de Jesus.
Ela leva à comunhão fraterna e ao serviço aos pobres, o que exige atenção às
reais necessidades das pessoas, inclusive defesa dos direitos humanos e
participação política ativa, na busca do bem comum. A política é também uma
forma elevada de caridade.
Pode-se reconhecer aqui a inspiração
do Concílio Vaticano II: a Igreja, descrita como povo de Deus e corpo de Cristo
(constituição Lumem Gentium), se alimenta da Palavra de Deus (Dei Verbum) e da
Liturgia (Sacrosanctun Concilium), e quer estar presente na sociedade humana em
atitude de solidariedade e de serviço (constituição Gaudium et Spes).
Novos desafios no início do Novo Milênio
Como o Concílio fez no início da “Gaudium et Spes”, buscando discernir os
“sinais dos tempos”, as Diretrizes - antes de indicar as pistas de ação aos -
evangelizadores - procuram entender o mundo de hoje e os apelos de Deus na
conjuntura atual (n.os 44 a 62).
Reconhecendo a complexidade da
sociedade atual, as novas DGAE renunciam a uma descrição sistemática e completa.
Apresentam traços da situação sociocultural em que estamos vivendo:
a “globalização” recente, que provocou crescimento econômico muito desigual, particularmente prejudicial aos países em desenvolvimento; fonte de novas desigualdades (n.° 45);
mesmo nos países ricos, prevalece uma impressão de desencanto; a globalização provocou um aumento sensível dos riscos (catástrofes climáticas e ecológicas, químicas e atômicas, terrorismo; insegurança do emprego e do futuro, violência cotidiana) (n.° 46);
a reação das pessoas é a busca do imediato, da satisfação aqui e agora (veja-se a sociedade de consumo, a permissividade, a sensualidade). A busca da felicidade e da realização pessoal, tornadas absolutas, trazem conseqüências negativas sobre as relações sociais, as instituições e os compromissos (n.° 47);
o enfraquecimento da política, que decorre da difusão do individualismo e, principalmente, do crescimento do poder dos grandes grupos econômicos multinacionais; o risco de esvaziamento da democracia, se a opinião pública não reagir (n.° 48);
as mudanças socioeconômicas, com a diminuição da mão-de-obra na indústria, a fragmentação do processo produtivo e a flexibilização das relações de trabalho (n.° 49);
o enfraquecimento das “comunidades” tradicionais e a rápida urbanização (formação de “megalópoles”), que favorece o contato com uma pluralidade de experiências e expressões culturais, multiplicando as possibilidades de escolha do indivíduo; a enorme expansão das comunicações sociais, que torna o indivíduo menos preso ao seu território (n.° 50);
o declínio dos papéis “naturais” ou tradicionais; o indivíduo constrói a própria identidade, mas corre o risco de não ter mais uma identidade estável e bem definida (n.° 51);
a família continua como apoio fundamental, embora esteja mais frágil e exposta a rupturas; o indivíduo procura sempre mais relações a partir de sua escolha, por afinidade de interesses (veja as novas experiências comunitárias, fundadas em afetos e afinidades emocionais) (n.° 52);
apesar do individualismo, há movimentos sociais em favor de causas mais amplas que a classe ou o interesse local, como a defesa dos direitos individuais e a busca de um “outro mundo possível” (n.° 53);
o individualismo no campo religioso, que leva o indivíduo a escolher sua religião ou a selecionar crenças, ritos e normas que lhe agradam subjetivamente; aumenta o número dos que recusam a adesão a qualquer instituição religiosa e cresce a atração pelas práticas esotéricas (n.° 54);
inversão de sentido da experiência religiosa; a religião torna-se busca de utilidade para o indivíduo; é intensamente procurada, inclusive na mídia, que pode banalizar a religião, reduzindo-a a mais um espetáculo; há uma tendência a afirmar a inocência dos indivíduos, recusando a “culpa”, enquanto a religiosidade convive com o aumento da criminalidade (n.° 55);
essas tendências, no Brasil, aparecem nos dados do Censo 2000, que evidenciam principalmente:
a diminuição da porcentagem dos cristãos católicos, de 83,3% (1991) para 73,9% (2000); uma diminuição semelhante aconteceu anteriormente num prazo de noventa anos (de 98,9% em 1890 para 89,0% em 1980); em números absolutos, os católicos passam de 122,3 milhões (1991) para 125,5 milhões (2000);
aumento da porcentagem dos cristãos evangélicos, de 9,0% (1991) para 15,6% (2000); em números absolutos, de 13 milhões (1991) para 26,4 milhões;
aumento dos que se declaram “sem religião”, que passam de 4,7% da população (1991) para 7,4% (2000), ou de 7 milhões para 12,5 milhões1 (n. ° 56);
muitos brasileiros freqüentam atos religiosos de várias denominações; a recente pesquisa do CERIS em seis regiões metropolitanas encontrou cerca de 25% dos entrevistados que freqüentam atos de mais de uma religião; cerca de metade deles (12,5% do total) o fazem sempre (n.°57);
a comparação dos dados religiosos
com outros, como diminuição da natalidade, aumento das uniões consensuais sem
legalização, aumento da escolaridade etc. aponta para uma “modernização” dos
hábitos da população brasileira (n.°58)3;
o país não se tornou menos
religioso; a declaração “sem religião” parece indicar mais uma “des-institucionalização” da religião; o indivíduo não adere mais a uma religião
institucionalizada, mas não deixa de acreditar em Deus e de rezar,
ocasionalmente (n.° 59);
o catolicismo perdeu, nas últimas décadas, um certo número de católicos “nominais”, mas ganhou em participação ativa dos fiéis na vida eclesial, na evangelização e no compromisso social (n.° 60);
muitas igrejas evangélicas se mostram dinâmicas na procura de novos fiéis, às vezes proselitistas. Quanto à organização da Igreja Católica, que está muito dependente do padre e da paróquia, podemos perguntar se conseguiu alcançar de forma suficiente as populações nas periferias metropolitanas, nas fronteiras agrícolas e na região Amazônica (n.° 61);
a maior porcentagem de católicos em certos Estados (Nordeste, Minas, SC, RS) e a menor porcentagem em outros (exemplo, RJ) podem ter causas históricas de longo prazo e não depender da ação pastoral recente (n.º 62).
Diretrizes de Ação
O capítulo III está organizado em três partes. A complexidade dos desafios que a
sociedade coloca hoje aos evangelizadores sugeriu a distinção de três âmbitos ou
áreas de ação: pessoa, comunidade, sociedade.
Para cada âmbito, foram formulados:
o desafio; a proposta cristã; as pistas de ação.
A formulação de cada desafio merece atenção. Não se quis abordar todos os problemas de cada área, mas se procurou reconhecer e destacar um desafio hoje particularmente urgente e importante.
Para compreender melhor as pistas sugeridas, é importante ter presente que sempre foram enfocadas segundo as quatro “exigências” da evangelização, ou seja:
A exigência do “serviço” indica o plano em que os cristãos procuram colaborar na edificação de uma sociedade humana e humanizadora, no nível da pessoa, das comunidades e das macroestruturas sociopolíticas e econômicas. Neste nível podem procurar parcerias e formas de colaboração com as forças vivas da sociedade.
A exigência do “diálogo” diz respeito à comunicação entre pessoas e grupos sociais no respeito das diferenças. É o campo do ecumenismo, do diálogo religioso e cultural, da luta contra a discriminação...
O “anúncio” exige a proposta da mensagem e da experiência cristã, numa palavra: do “evangelho” de Jesus. A própria forma do anúncio deve ser evangélica, dialogal, fraterna, se não se quiser obscurecer o conteúdo da mensagem com atitudes agressivas ou autoritárias pouco condizentes com ela. O dever do anúncio não se limita ao próximo, mas envolve a cooperação com a missão ad gentes, a proclamação da Palavra a todos.
A exigência da “comunhão” propõe a realização - nas comunidades eclesiais - daquele espírito e daquela prática da comunhão fraterna, que nascem da aceitação e compreensão do evangelho. A comunhão deve ser, antes de tudo, uma “espiritualidade”, mas também deve ser expressar em atitudes e práticas que facilitem a comunhão com Deus, o entendimento entre os irmãos, a participação de todos.
Promover a dignidade da pessoa
1.1 - O Desafio: A construção da identidade pessoal e da liberdade autêntica
numa sociedade consumista.
Estamos numa época de individualismo, que oferece ao indivíduo uma aparência de
liberdade, uma ilusão, mas de fato o manipula e massifica. Como ajudar as
pessoas a conquistar a liberdade autêntica e a definir sua identidade?
1.2 - A FÉ CRISTÃ: A dignidade absoluta da pessoa -
“Filhos de Deus, nós o
somos!” (1Jo 3, 2).
A fé cristã tem uma concepção altíssima da dignidade da pessoa humana, criada
por Deus para a liberdade e a criatividade, e remida em Cristo, para tornar-se
plenamente filha de Deus, santa, chamada ao amor e à comunhão com o próprio Deus
e os irmãos. “Reconhece, cristão, a tua dignidade!”, pois - como dizia S.
Agostinho: “Vos tornastes não apenas cristãos, mas o próprio Cristo”.
1.3 - PISTAS DE AÇÃO: Serviço; Diálogo; Anúncio; Comunhão.
As pistas de ação indicadas têm como núcleos principais:
1.3.1 - no serviço, ajudar a formação humana das pessoas, a começar pela garantia das condições básicas de vida, passando principalmente pela educação e o aconselhamento (cf. n.° 85);
1.3.2 - no diálogo, educar ao respeito das diferenças (religiosas, culturais etc.), pressuposto para a superação das discriminações (n.os 86-92);
1.3.3 - no anúncio, propor o evangelho de Jesus Cristo a todos (n.os 94-95), em termos de diálogo, a partir da experiência de cada pessoa, na forma do encontro fraterno e do testemunho (n.os 96-100);
1.3.4 - no testemunho de comunhão, formar comunidades cristãs verdadeiramente acolhedoras e fraternas, de comunhão e participação, de oração e experiência de Deus, de comunicação (n.os 104-111).
Renovar a comunidade
2.1 - O DESAFIO: A fragmentação da vida e a busca de relações mais humanas.
O desafio é buscar relações humanas mais fraternas e solidárias, tirando o
indivíduo do isolamento e da massificação, da fragmentação da vida pessoal e
social.
2.2. - A FÉ CRISTÃ: Da dignidade de filhos à realização da fraternidade -
“Vós
todos sois irmãos!” (Mt 23,8).
A fé cristã vê todos os seres humanos como filhos e filhas do mesmo Pai,
portanto irmãos e irmãs. A prática da comunhão fraterna marca as comunidades
cristãs e reflete nelas a própria natureza do Deus que é comunhão trinitária.
2.3 - PISTAS DE AÇÃO: Serviço; Diálogo; Anúncio; Comunhão.
As pistas de ação propostas são:
2.3.1 - no serviço, educar as pessoas ao relacionamento solidário e fraterno, defendendo as famílias e as pequenas comunidades, além de prestar aqueles outros serviços sociais que permitam uma convivência pacífica e positiva para as pessoas (n.° 123);
2.3.2 - no diálogo, contribuir para a convivência respeitosa entre comunidades diferentes, sem discriminações, superando as formas de opressão que permanecem (especialmente para índios e negros - cf. n.os 130-131);
2.3.3 - no anúncio, fazer da própria comunidade cristã um anúncio e prestar especial atenção às comunidades que precisam de evangelização;
2.3.4 - no testemunho de comunhão, incentivar comunidades eclesiais acolhedoras e participativas, mas sem cair no puramente emocional; garantir a todos o acesso aos bens espirituais da Palavra, dos Sacramentos e da Caridade; buscar na espiritualidade práticas de comunhão (n.os 139- 151).
Construir uma sociedade solidária
3.1 - DESAFIO: O escândalo da exclusão e da violência na sociedade consumista.
O desafio é contribuir para desenvolver uma sociedade solidária e não
excludente, como a que temos.
3.2 - PROPOSTA CRISTÃ: A realização da solidariedade -
“Não havia necessitados
entre eles” (At 4,34).
Os cristãos sentem o dever de ser solidários com todos e de contribuir para a
construção de uma sociedade, justa e solidária, da qual se possa dizer, como da
primeira comunidade cristã: “Não havia necessitados entre eles”. Essa tarefa é
enorme e, por isso, pareceu oportuno distinguir três níveis da ação:
Iniciativas e práticas solidárias - É o nível do socorro às necessidades imediatas e urgentes, que tem seu ícone no “bom samaritano”, que socorre o ferido, com seus próprios recursos, sem perguntar quem é (cf. n.os 157-162).
Reivindicação de políticas públicas - É dever dos cristãos também reivindicar “políticas públicas” e ações para resolver os problemas sociais, a começar pêlos mais gritantes. A Igreja, há tempo (especialmente na Assembléia de 2000, sobre os 500 anos do Brasil, e no documento sobre as eleições de 2002), indica uma lista de prioridades (cf. n.º 166).
Participação política -Apesar do enfraquecimento da política (cf. n.º 48), cabe aos cristãos e às comunidades eclesiais incentivar a participação política e o exercício da cidadania, numa perspectiva que vise não só a novas políticas públicas a curto prazo, mas a um novo modelo de sociedade - justa e solidária - a médio e longo prazos (cf. n.os 168-175).
Dessas orientações básicas decorrem pistas de ação, que devem ser pensadas também olhando a realidade local.
3.3 - PISTAS DE AÇÃO: Serviço; Diálogo; Anúncio; Comunhão.
São dados aqui exemplos de como concretizar as orientações gerais:
quanto ao serviço: mutirão contra a miséria e a fome, levantamento das necessidades sociais, parcerias com a sociedade civil, incentivo à participação política, acompanhamento da atuação dos poderes públicos, promoção do direito à informação, luta contra o consumismo, apoio aos migrantes etc. (cf. n.os 176-185);
quanto ao diálogo: colaboração com outros grupos religiosos e organizações não governamentais na educação à solidariedade, prevenção da violência, luta contra a corrupção, promoção da inclusão social, superação das discriminações, defesa da cultura das minorias... (cf. n.os 186-192);
quanto ao anúncio: coerência de vida cristã, evitando todo contágio com o mercantilismo da sociedade consumista; uso adequado dos meios de comunicação social na evangelização; renovação da pastoral urbana; valorização da religiosidade popular; atenção especial aos jovens... (cf. n.os 193-198);
quanto à comunhão: testemunho da comunidade cristã no serviço da sociedade e dos mais pobres; difusão da doutrina social cristã; formação da consciência social e política dos católicos; celebrações dos eventos da vida do povo; empenho para superar desigualdades e praticar solidariedade dentro da própria Igreja... (cf. n.os 199-203).
Uma Recepção Criativa
O texto das Diretrizes termina com uma exortação à “recepção criativa”
(n.os 204-211) nas dioceses e paróquias, para que estas possam planejar
estimuladas e orientadas pelas Diretrizes, mas também atentas às exigências de
sua realidade local e às expectativas do povo. As frases finais são:
Agora, devemos olhar para a frente,
temos de ‘fazer-nos ao largo’, confiados na palavra de Cristo: “Duc in altum”.
“Na causa do Reino, não há
tempo para olhar para trás, menos ainda para dar-se à preguiça. Há muito
trabalho à nossa espera; por isso, devemos pôr mãos a uma eficaz programação
pastoral” (João Paulo II, NMI, 15), tendo sempre presente o primado da
graça.
“Nesse caminho até o Reino
definitivo, acompanha-nos a Virgem Santíssima, “aurora luminosa do
Novo Milênio”. Caminhando conosco vai o Peregrino de Emaús, aquecendo
nossos corações com suas palavras e deixando-se reconhecer “ao partir o Pão”,
tornando-nos testemunhas que correm junto aos irmãos, levando-lhes o grande
anúncio: “Vimos o Senhor”!”
Diretrizes e Planejamento Diocesano Local
As DGAE foram concebidas como instrumento de planejamento pastoral de uma diocese, de um setor (ou área, ou forania, ou movimento...), de uma paróquia ou comunidade. Não são uma proposta para que CADA UM faça TUDO. É bom que cada cristão tenha consciência de que a sociedade atual atinge e influencia, condicionando, às vezes de forma inconsciente, a vida de todos, exigindo uma atitude de reflexão e discernimento. (A característica da modernidade é sua “reflexividade”, a proposta contínua de novas informações e de novos meios, recolocando perenemente em discussão as atitudes correntes e, com isso, também os valores.) Mas as Diretrizes são feitas para que haja uma avaliação das ações realizadas e um planejamento criativo das ações futuras. O trabalho do acolhimento das pessoas, do desenvolvimento da comunidade e da atuação sociopolítica deve ser dividido entre pessoas, grupos e pastorais, procurando “sinergia” ou integração de todos num esforço convergente, que visa ao mesmo objetivo: EVANGELIZAR.
Texto extraído do “Jornal de
Opinião”
Visão Cristã da Atualidade.
Com autorização do
Revmo. Pe. Alberto Antoniazzi
A íntegra da DGAE (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil)
pode ser baixada clicando
aqui