1° Domingo da Quaresma 2020

A Quaresma é um caminho rumo à Páscoa. Nesse itinerário somos chamados à conversão e a progredir na santidade. Iniciamos a peregrinação na quarta-feira de cinzas, reconhecendo a nossa condição de pecadores e necessitados da graça e do perdão do Senhor. As semanas que seguem nos educam a caminhar com Ele.

O primeiro domingo trata das tentações de Jesus (Mt 4,1-11). Ele vai ao deserto e luta contra o diabo. O Evangelho de Mateus apresenta-o como o mestre que veio realizar a justiça do Reino ((Mt 3,15). Praticar a justiça é fazer a vontade do Pai. Depois de uma forte experiência no deserto, o diabo – tentador, quer perverter a sua missão. Usa até a Bíblia para convencer.

Mesmo na sua fragilidade física, mas não espiritual, Jesus é fiel: na liberdade obedece ao Pai e revela o tipo de messianismo que Ele veio realizar. Age pelo Espírito e vence o tentador.

Jesus recusa primeiro um messianismo imediatista, realizado por sinais que dispensam a fé e com conteúdo apenas materialista das necessidades humanas.” Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 4,4). As coisas materiais são necessárias, mas o bem maior é Deus e a sua palavra. Devemos buscar a sua vontade acima de tudo, a viver a solidariedade, a partilha e a gratuidade.

O messianismo de Jesus não desafia as promessas de Deus. “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (Mt 4,7). Não se pode dominar a vontade do Pai. O caminho verdadeiro não é de prestígio, privilegio e triunfalismo, mas de serviço.

Também no seu caminho, Jesus não aceita um messianismo nacionalista e idólatra, que recusa a Deus como único Senhor. “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto” (Mt 4,10). Devemos adorar e servir somente ao Pai celeste.

As tentações de Jesus lembram as tentações do povo de Deus no deserto e também as nossas. Ao contrário de Israel, ele vence o diabo com a força da palavra, sendo obediente a vontade de Deus e nos ensina a fazer o mesmo. Nos desertos e crises da vida, o Espírito é a nossa força e a nossa resistência contra o mal.

Gênesis 2, 7-9; 3,1-7 narra o cuidado de Deus com o homem e a mulher, oferecendo-lhes a vida e as condições necessárias para a sua sobrevivência. Na liberdade, eles são chamados a dar uma resposta ao Criador de fidelidade e obediência. Mas ambos não reconhecem esta graça e se deixam levar pela serpente, força do mal. No seu diálogo com a mulher, ele mente, exagerando: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim’? (Gn 3,1). Também a mulher apresenta as coisas de modo equivocado, como se Deus tivesse proibido até de tocar na árvore. Na verdade, Deus deu uma ordem ao homem e a mulher: esses poderiam comer de todas as árvores do jardim, menos da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,16-17). Portanto, de premissas falsas, surgem conclusões falsas. A falta de objetividade desencadeia a tentação.

A serpente desperta o desejo e a curiosidade da mulher de comer o fruto. Depois, desaparece. A mulher comeu o fruto e deu ao seu marido, que também o comeu (Gn 3,6). Homem e mulher são solidários no pecado. A imagem da nudez lembra a inocência das crianças que não têm vergonha. Um adulto tem vergonha de agir assim.

A tentação humana é ser como Deus. É revoltar-se contra a condição de dependência. Por isso, a raiz do pecado está na opção errada que fazemos diante do Senhor. O pecado é a escolha errada, é desviar-se do seu caminho.

Em Romanos 5,12-19, Paulo diz que o pecado gera a morte, tira a liberdade, afasta-nos de Deus e do seu plano de amor. Como sair da escravidão do pecado? O dom gratuito concedido através de Jesus Cristo, seu ato de justiça, sua obediência, sua morte e ressurreição nos justificam e dão sentido a nossa vida.

Em Jesus, temos a possibilidade de vencer o pecado. A sua graça é maior do que as nossas misérias. Nenhuma tentação poderá nos separar do amor de Deus. É com essa confiança que devemos celebrar a Quaresma.

Dom Paulo Roberto Beloto, Bispo Diocesano.