24º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Mateus 18 relata um discurso de Jesus sobre a vida comunitária. São vários temas abordados, como a humildade, o escândalo causado aos pequenos, a correção fraterna, a oração comunitária.

A passagem desse domingo trata do perdão (Mt 18, 21-35). Diante da pergunta de Pedro sobre quantas vezes se deve perdoar um irmão, Jesus respondeu: “setenta vezes sete”, isto é, sempre. A parábola do “credor impiedoso” revela a dívida que temos para com Deus e sua infinita misericórdia, pois Ele perdoa sempre. Por maiores que sejam as dívidas e o pecado, o perdão, para o Senhor, não tem limites, é total e contínuo.

Eclesiástico 27,33-28,9 antecipa os ensinamentos de Jesus: “O rancor e a raiva são coisas detestáveis... Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados” (Eclo 27,33; 28,2).

O Senhor perdoa todas as nossas iniquidades e cura todas as nossas doenças...  “Não age conosco segundo nossos pecados, e não nos retribui segundo nossas iniquidades... Como o oriente se distancia do ocidente, tanto ele afasta de nós nossos pecados” (Sl 103 (102, 3.10.12).

Perdoar é um ato de amor que imita a maneira de Deus agir. Temos uma dívida incalculável com Ele, que só a sua compaixão pode saldar.

Jesus é a encarnação da misericórdia de Deus, é o Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo e que nos salva (1 Cor 5,7; Ap 5,6). Ele expiou os nossos pecados, morreu por nós (Rm 4,25; 5,6.8). Somos salvos pelo oferecimento e sacrifício de Cristo na cruz: “Foi ele que nos livrou do poder das trevas, transferindo-nos para o reino do seu Filho amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados” (Cl 1,13-14).

Perdoar exige vontade, obediência, decisão, humildade. Ser humilde é vencer o fechamento e a mesquinhez diante do outro que errou. Mesmo porque, conforme a estória contada por Jesus, a dívida de nossos irmãos para conosco é irrisória, comparada com a nossa para com Deus. Como não podemos pagá-la, a solução é agir também com misericórdia com as pessoas.

O ato de perdoar destrói o ódio e a vingança, transforma as situações, derruba os muros de inimizades, reconstrói os relacionamentos, traz a harmonia de volta, salva a vida comunitária. O perdão é como se fosse um agente purificador do nosso coração, dos afetos, desobstruindo a alma e nos libertando para dar e receber amor.

Mas muito mais do que o esforço humano, perdoar é um ato de fé, exige graça de Deus, exige oração de nossa parte. Por isso é que Jesus nos ensinou também a rezar no Pai nosso essa experiência, pedindo que Deus perdoe “as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Jesus perdoa, nos ensina também a perdoar e a celebrar a nossa reconciliação. Ele deixou o sacramento da penitência, definido pela Igreja, como sacramento de cura, conferindo o perdão dos pecados, nos reconciliando com Deus, com a Igreja, com os irmãos e devolvendo a nossa dignidade perdida.

Experimentamos a misericórdia e o perdão porque pertencemos ao Senhor. Ele “morreu e ressuscitou exatamente para isto, para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (Rm 14,9). Viver para o Senhor, é viver em vista dele, viver da sua vida. Ele é o centro, dele recebemos a luz e o Espírito de vida. Só podemos funcionar no Senhor, centralizados nele. “És tu o meu Senhor, fora de ti não tenho bem algum” (Sl 16(15), 2).

Dom Paulo Roberto Beloto, Bispo Diocesano.