3º Domingo da Quaresma 2021

João 2,13-25 narra a cena de Jesus no Templo de Jerusalém, expulsando “os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam ai sentados”.

O Templo de Jerusalém era uma instituição fundamental para a história de Israel, na sua dimensão religiosa, política, econômica e social. Centro de encontro com Deus, através do culto e adoração, lugar de muitas celebrações e sacrifícios, principalmente nas grandes festas da Páscoa, Pentecostes e Tendas, reunindo grande número de peregrinos.

O Templo possui uma história de altos e baixos: sua origem vem desde o reinado de Salomão (966-926 a.C.). Passou por uma reforma na época de Josias (641-610 a.C.), quando foi encontrado o livro da Lei, que serviu de referência. Foi praticamente destruído quando os babilônios invadiram Jerusalém (587 a.C.). Com o retorno do exílio de famílias de judeus, em 538 a.C., sob a direção de Zorobabel e Josué, foi incentivada a sua reconstrução. O profeta Ageu também encorajou essa reconstrução (520 a.C.), servindo de ponto de unidade do povo. O Templo ganhou dimensões magníficas no período de Herodes (19 a. C.). Foi destruído no ano 70, pelos romanos.  

Na época de Jesus, o Templo tinha importância decisiva, como lugar de reunião dos judeus, inclusive da Diáspora. Ali se concentravam os impostos, dízimos, donativos, esmolas e demais ofertas. Segundo historiadores, o templo era de certa forma um banco, que guardava o dinheiro dos impostos e os bens das famílias mais ricas. Todo esse tesouro servia para manutenção do local, como dos sacerdotes e outras profissões.

Além do Templo de Jerusalém, houve durante a história de Israel outros locais de cultos, como pequenos santuários. As sinagogas eram locais de oração e leitura da Palavra de Deus. Quando os judeus retornaram do exílio foi construído um templo no Monte Garizim, para os samaritanos. Foi destruído em 128 a.C., mas a montanha continua sendo local de adoração e culto. Hoje restam as sinagogas em vários locais do mundo, onde residem judeus e o Muro das Lamentações, lugar sagrado do judaísmo, único vestígio do grande Templo de Jerusalém.

Há várias referências nos evangelhos que relatam o relacionamento de Jesus com o Templo de Jerusalém, desde a sua apresentação (Lc 2,22ss), peregrinação com os pais por ocasião da Páscoa (Lc 2,41ss), até o ato mais polêmico, que foi a expulsão dos vendedores e compradores (Mt 21,12-17); Mc 11,13-19; Lc 19,45-48: Jo 2,13-22)). Ele fez também a profecia da sua destruição (Mt 24,1-14; Mc 13,1-13; Lc 21,5-19).

As críticas de Jesus se concentram no desvio da finalidade do Templo, de lugar de encontro com Deus, para lugar de lucro e negócios: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2,16).

“Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei... Jesus estava falando do templo do seu corpo” (Jo 2,18.21). O gesto de purificação do templo de Jerusalém é ocasião de revelação de outro lugar de culto, adoração e encontro com Deus: o corpo de Jesus ressuscitado. “Quem quer adorar a Deus em espírito e verdade deve fazê-lo em Cristo” (Missal dominical, página 200). Ele é o novo templo, lugar de perfeito culto.

Há lugares de encontros com Jesus Cristo ressuscitado: Sagrada Escritura, Sagrada Liturgia, tendo a Eucaristia como “lugar privilegiado”, oração pessoal e comunitária, pobres, aflitos e enfermos, piedade popular, na “fé recebida e vivida na Igreja” (DAp, 246-275).

Na Igreja, Cristo é o seu centro, a sua cabeça, a pedra fundamental, o alicerce. A verdadeira Igreja é o corpo, morto e ressuscitado de Jesus Cristo, fonte de nossa pregação (1 Cor 1,23). Na Igreja somos pedras vivas, a construção de Deus (1 Cor 3,9.16).

“Não sabeis que vosso corpo é santuário daquele que habita em vós, o Espírito Santo que recebestes de Deus?” (1 Cor 6,19). Se nosso corpo é morada de Deus, a Ele pertence. Nos exercícios penitenciais da Quaresma, a liturgia nos convida a expulsar de nós, principalmente do nosso interior, aquilo que profana o templo de Deus, como egoísmo, raiva, divisões, julgamentos, preconceitos, inveja, pensamentos ruins, que dirigem nossos sentimentos e ações. É preciso, com a graça de Deus, disciplinar e dirigir pela vontade, inteligência, amor e a verdade as nossas emoções, sentimentos, afetos e as paixões, reordenando-os segundo a vontade de Deus. A ascese e a mortificação, próprios de quem acolhe a santidade, não é negação da liberdade ou dignidade humanas, mas um esforço, contando com a graça divina, de orientar a vida, o tempo, os compromissos, as atividades, as gratificações e tudo aquilo que constitui a vida humana, segundo o Espírito, para o que fato educa, faz bem e agrada a Deus.

O que melhor agrada a Deus é cumprir os mandamentos, presentes no Decálogo (Ex 20,1-17), base da nossa vida moral, cujo centro é o amor (Mt 22,40). Quem ama a Deus e guarda os seus mandamentos é cumulado de misericórdia (Ex 20,6).

Dom Paulo Roberto Beloto, Bispo Diocesano.