As pragas do Egito...

O livro do Êxodo relata a saída do povo escravo do Egito, sob a liderança de Moisés. Este evento tornou-se centro referencial da história de Israel. Diante da dureza do coração do faraó, que impedia que os hebreus fossem ao deserto oferecer um sacrifício, Deus feriu o monarca e os egípcios com uma série de pragas. As lições dos sinais da natureza (Ex 7,14-11,36) não se referem apenas à liberdade de um grupo oprimido, mas principalmente a revelação de um Deus que vê a humilhação do seu povo, ouve o seu clamor, conhece o seu sofrimento e desce para libertá-lo (Ex 3,7-8). A fidelidade e a obediência a este Senhor e à sua Aliança são garantias de vida, liberdade, prosperidade, santidade e paz.

A liberdade não se resumiu em sair do Egito. O povo caminhou durante 40 anos pelo deserto, numa pedagogia de aprendizado, com altos e baixos, castigos e perdão, rompimento e restauração da Aliança, rumo à Terra Prometida. A lição principal e garantia de vida e liberdade era a fidelidade à aliança (Ex 19,5-6).

Na continuidade da história foi escrito o livro do Deuteronômio, que descreve o “Shemá Israel” – “Escuta, Israel” (Dt 6,4-6), uma das orações mais importantes do povo judeu, ensinada desde cedo às crianças. Com certeza, Jesus aprendeu e recitava essa oração. Dessa experiência, Ele resumiu toda a Lei no amor a Deus, primeiramente, e no amor ao próximo (Mc 12,29-31). Quem vive assim, não está longe do Reino de Deus.

Quantas lições o coronavirus vai nos deixar?

Esse sinal da natureza espalhou medo, ansiedade, angústia, transtornos, distúrbios, divisões, confusão, exaustão, desemprego, fome, doenças, mortes, dores e sofrimento. Uma tragédia que parece não ter fim, uma cruz que a humanidade carrega. Mas aprendemos muito também. Numa dura pedagogia, as luzes vão se acendendo, com a inteligência, o trabalho coletivo, a ciência. O plano de Deus está presente nesse esforço humano, e o nome do Criador é glorificado nas conquistas da humanidade. “As vitórias do gênero humano são um sinal da grandeza de Deus e fruto do seu plano inefável” (GS, 34). Que tudo se realize na justiça e na solidariedade. 

“Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12,2). O essencial em nossa vida é a fé em Jesus Cristo, nosso Sinal maior. Qualquer ação que não reconhece Deus, Jesus crucificado e ressuscitado, diminui o ser humano. Por isso, a religião está no centro da existência humana, é portadora de sentido e de esperança.

Com essa prioridade, organizamos e planejamos as coisas, as atividades, os relacionamentos, também fundamentais, mas relativos e provisórios, pois tudo passa e é imprevisível. Quando estamos abertos ao Espírito, somos iluminados e animados por sua presença, procurando respostas certas de acordo com as circunstâncias.

Temos um longo caminho a percorrer. O povo caminhou muito pelo deserto até chegar à terra prometida. Aprendemos com Jesus que não suprimiu os desafios, a dor e o sofrimento, mas assumiu a sua experiência sem revolta. Se temos a Cristo, a vida mesmo com cruz, é mais bela e mais humana. Se temos fé, sabemos que Deus está conosco e por isso seguimos em frente.

Em nosso caminho, seguindo a luz de Jesus, cuidamos dos mais frágeis, utilizando os meios disponíveis no exercício da caridade pastoral, no pacto pela Oração e pela Vida, em diálogo e comunhão fraterna.

“Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações, pois sabeis que a prova da fé produz em vós a paciência” (Tg 1,2-3).

Dom Paulo Roberto Beloto, Bispo Diocesano.