"O Poderoso fez por mim grandes coisas" (Lc 1,49)

Há uma reação natural e normal que brota em cada pessoa ao terminar uma boa atividade, um trabalho, uma obra de arte: de encantamento, alegria, realização, dever cumprido. Fomos criados para a ação e nela realizamo-nos. Até quem cuida de uma simples planta, ou confecciona uma muda de roupa, prepara um bolo. Lembro-me, numa ocasião de férias, que minha mãe ficou frustrada porque um bolo que ela fez não cresceu: o fermento devia estar estragado.

Conta a lenda que o famoso e exímio escultor e pintor Michelangelo, quando terminou de esculpir a estátua de Moisés, para o túmulo do Papa Júlio II, ficou tão encantado com a sua obra, dirigindo-se a mesma, disse: “Parla”.

Bem, até o Criador gostou da sua obra: “Então Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31). Mas Ele tem essa autoridade.

São Tiago dizia que a fé se mostra na prática, “se não se traduz em ações, por si só está morta” (Tg 2,17).

Proponho uma reflexão e um movimento contrário, sem negar por completo o primeiro. Mas sem exageros, caso contrário, correríamos o risco de atitudes farisaicas: querer cobrar de Deus privilégios por causa de nossas obras. Devemos nos alegrar não por aquilo que fazemos, mas por aquilo que Ele faz em nós. Essa atitude nos consola mais, pois podemos errar em nossas ações. E Deus não falha. Ele nos ama apesar de tudo.

Nesse tempo de quarentena, alguns podem ter a sensação de inutilidade, principalmente quem foi forçado a deixar grande parte dos afazeres normais. Deus continua nos amando. É uma ocasião para refletir e ser solidário com muitos que, por causa da idade, de uma doença, de uma deficiência, do desemprego, estão impossibilitados de ações. E Deus os ama tanto!

Em época de pandemia, que pode ferir o nosso corpo, e precisamos cuidar e bem dele, pois é obra de Deus, aprendemos no silêncio a cura de nossa alma, de nosso interior. O remédio é o amor de Deus, o único possível e eficaz. Só o amor cura, salva e santifica e nos torna solidários.

Aprendemos de José e Maria: Deus realizou maravilhas em suas vidas. O amor que ambos sentiam do Senhor foi a força da obediência e do serviço. A certeza desse amor fez com que eles consagrassem as suas vidas. Esse amor não significa ausência de desafios e crises, mas a certeza de uma presença e de uma força maior.

Também para nós, a certeza do amor de Deus é o motor que nos impulsiona. Só assim, poderemos responder aos seus apelos e aos apelos da nossa existência.

Minhas orações a todos.

Dom Paulo Roberto Beloto, bispo diocesano.