​Somos salvos no Amor - Pe Adilson Fortunato

Como lidar com a dor? Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes quando pensamos na questão que se impõe sobre o tema do suicídio. Nas linhas que se seguem, quero oferecer algumas impressões que, espero, possam contribuir de alguma forma para este debate.

O primeiro pensamento se refere à necessidade básica compartilhada por toda a nossa espécie de nos sentirmos queridos por aqueles que nos acolhem desde o momento de nossa gestação. Do que conheço, tenho a convicção de que faz muita diferença este sentimento desde o útero materno. Trata-se de uma necessidade que só aumenta uma vez saídos daquele ambiente protegido que nos envolveu.

Aquela crise inicial tão intensa provoca em nós a sensação de sermos “expulsos” deste lugar tão importante. Desfaz-se aquela proteção inicial. Advém inúmeras outras crises. Logo nos primeiros anos ocorre o processo de individuação, no qual tomamos consciência de sermos seres “separados”. Mais uma vez, são geradas em nós vivências variadas, não raro, permeadas de sentimentos de medo, dor e solidão. Desde cedo, portanto, abrem-se em nossa alma “feridas” que nos acompanharão vida afora.

Na tentativa de responder a tantos traumas, desenvolvemos instintivamente algumas “camadas” desejando nos proteger e evitar estas dores. Surge assim a tal “personalidade” que, ao meu ver, é um mecanismo desenvolvido para dar conta da dor do sentimento básico de não nos sentimos acolhidos (por mais que o sejamos...) por aqueles que são nossas referências iniciais (pais ou cuidadores).

Ocorre que aquela capa não dará conta, certamente falhará e isso gera em nós a sensação de que “voltamos à estaca zero”, no que se refere àquele sofrimento inicial de expulsão do paraíso. No desespero de não saber mais como responder, nascem possibilidades dramáticas para a extinção daquela dor. Entre estas possibilidades, infelizmente está o suicídio. Mesmo sendo hoje capazes de compreender que tal ato possa ser cometido por desespero, na tentativa de se desfazer de uma dor, não podemos nos render como sociedade e, muito menos como cristãos, a tal “tendência” que atenta tão frontalmente contra o que existe de mais sagrado, que é a vida.

O que nos salva é o amor. Não vejo outra resposta para a questão do suicídio. Não existe outra, a não ser redescobrir que o Amor está na base da nossa existência. O próprio movimento que se criou ao redor deste fenômeno, conhecido como “Setembro amarelo” é, no fundo, uma expressão de amor pela vida. Importantíssimo é o apoio e a presença da Igreja nesta causa.

Mas, onde podemos encontrar o Amor? Minha sugestão: encontramos este Amor em nossa própria casa. Quero, com esta imagem de regresso à nossa morada, oferecer uma pequena contribuição para este debate. Por “casa”, estou especificamente me referindo ao nosso ser mais profundo, à nossa essência, a quem realmente somos. Visitar este lugar. Sermos ajudados a redescobrir, ressignificar nossa compreensão. Quando digo isto a quem me pede orientação espiritual, brota a pergunta: “como posso fazer isso?”. Diante do silêncio imediato que se cria e, após algumas palavras meio desajeitadas de minha parte, compartilho o que funcionou e continua sempre atual para mim: o anúncio de que Deus nos ama imensamente, muito mais do que jamais sonhamos.

Sim, creio no anúncio do Amor! Daquele amor desconhecido por nossos egos imediatistas e inconstantes. O Amor incondicional, gratuito, infinito, acessível de Deus por nós. Quando persiste a pergunta: “Tá bom, mas onde posso encontrar esse amor?” Hoje, tenho clareza ao responder: dentro! Dentro de nós! Dentro da nossa alma! Sim, pois ali é morada do Altíssimo. Afinal, somos templos! Por isso, não encontraremos soluções para esta questão do suicídio ou qualquer outra referente ao sentido da vida longe de casa, longe de nossa alma. Quando nos sentimos em casa, também encontramos segurança e motivação para nos relacionarmos com os demais. Brotam relações de reciprocidade, mais do que de dependência. Não delegamos aos outros a responsabilidade de nos fazerem felizes. Descobrimos que a felicidade já está dentro e se desenvolve em legítimas interações.

Encontramos aqui a necessidade urgente de anunciar o Amor. Mesmo para aqueles que não têm referência na religião. Não se trata de simples religião, trata-se de compartilhar um anúncio que pode chegar num momento decisivo. Por isso, nesta campanha para prevenção do suicídio, minha sugestão é renovarmos de todas as formas possíveis, até que o outro possa compreender, que ele/ela é amado/a infinitamente. E que a origem deste amor é acessível.

Se você que está lendo estas palavras já se encontra em casa, estenda também a sua mão para ajudar outros a encontrar-se também em casa. “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todos. Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Pe. Adilson Fortunato.


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