5º Domingo da Páscoa - Ano B

João 15,1-8 faz parte do conhecido da “Livro da Glorificação” (Jo 13-17). É um conjunto de orientações e exortações de Jesus aos “seus”, antes da paixão. No contexto da celebração da Ceia com os Doze, no cenáculo, Ele realizou um gesto desconcertante, lavando os pés dos discípulos. Foi um ato de amor e humildade: Jesus amou, servindo. Após o gesto, temos uma espécie de catequese, com as últimas lições do Mestre, através de palavras marcadas pela intimidade, ditas num clima de silêncio, discrição e contemplação. Diante do vazio provocado pela sua suposta ausência, Jesus transmite palavras de consolo. No centro de sua catequese está o mandamento novo: a prática do amor.

A imagem da videira é familiar no mundo bíblico. É o símbolo de Israel como povo de Deus eleito, amado e querido, convidado a corresponder na justiça e santidade.

Jesus se apresenta como a videira verdadeira, e o Pai é o agricultor. Nós somos os ramos: só teremos a vida se estivermos unidos a Jesus, pois sem ele nada podemos fazer (Jo 15,5). “És tu o meu Senhor, fora de ti não tenho bem algum” (Sl 15,2).

O verbo permanecer que aparece várias vezes, supõe uma experiência de união íntima, comunhão de vida, de sentimentos e compromissos. Permanecer em Jesus é receber da sua vida, do seu amor (Jo 15,9), do seu perdão. É ter o alimento necessário, a força, a proteção, a comunhão que produz fruto.

Deus é a fonte de tudo. Só funcionamos nele. Sem essa amizade profunda a vida perde o sentido. Tudo o que está fora de Deus, é relativo. Nele está a alegria e a felicidade.

No Batismo e na Confirmação fomos enxertados e confirmados em Cristo Jesus. Somos os ramos da videira, que é o Senhor. Somos membros do seu corpo (Rm 12,5; 1Cor 12,27).

Como celebrar a nossa comunhão com Jesus? Na Sagrada Escritura, na Sagrada Liturgia, sendo a Eucaristia “lugar privilegiado”, no sacramento da reconciliação, na oração pessoal e comunitária, no amor fraterno, no compromisso com os pobres, aflitos e enfermos, na piedade popular. Celebramos esse encontro, graças à ação invisível do Espírito, “na fé recebida e vivida na Igreja” (DAp, 246-275).

Longe de Jesus perdemos a vida, secamos como o ramo que não permanece unido à videira. Permanecendo nele, guardando os seus mandamentos (Jo 15,10; 1 Jo 3,24), conservando a comunhão necessária, graças ao Espírito, produzimos os frutos: amor, alegria, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, domínio de si próprio (Gl 5,22-23. A experiência de comunhão profunda e verdadeira com Deus é caminho de santidade.

Como o Senhor corrige os que ele ama, pois é como um pai que quer bem aos seus filhos (Pr 3,12; Hb 12,6), nós também somos podados em nossos desvios e afeições desordenadas, que muitas vezes comprometem as nossas ações retas. Não é castigo de Deus, mas condição para produzir os bons frutos.

O apóstolo Paulo passou por uma profunda poda ao encontrar-se com o Senhor no caminho de Damasco. Mesmo após sua experiência de mudança, quando é apresentado aos discípulos em Jerusalém, experimenta o medo destes e a desconfiança da sua conversão. Foi necessária a intervenção de Barnabé. Seu testemunho de fé e confiança no Senhor ressuscitado o tornaram grande anunciador do Evangelho (At 9,26-31).     

Dom Paulo Roberto Beloto, Bispo Diocesano